segunda-feira, 1 de julho de 2013

Pronunciamento do Embaixador Bustami na abertura da exposição do Le Bourget

Importante pronunciamento do Embaixador do Brasil na França onde defende a parceria dos dois países no desenvolvimento de projetos de defesa e de transferência de tecnologia.

Seminário “Indústria aeronáutica e de defesa no Brasil: oportunidades para a Parceria Estratégica Brasil-França”

Embaixador José Maurício Bustani
18/6/2013

Ao introduzir este seminário sobre as oportunidades para a parceria Brasil-França no setor aeroespacial e de defesa, que a Embaixada do Brasil e o GIFAS têm o grande prazer de editar, pela segunda vez, a margem do salão LeBourget, queria compartilhar alguns elementos de análise e o meu testemunho.

Esse é um testemunho que me sinto especialmente autorizado a fazer, após ter completado cinco anos como Embaixador do Brasil em Paris e47anos no serviço exterior do Estado brasileiro, dos quais cinco na chefia da OPAQ, período no qual pude conhecer intimamente as entranhas do palco internacional e os instrumentos que seus grandes atores costumam utilizar na defesa egoísta dos seus interesses. Pude até conhecer a dolorosa experiência de ver minha imparcialidade injustamente punida. Darei, portanto, um testemunho político, de um servidor público apenas preocupado com o futuro do seu país.

O Brasil encontra-se em plena transformação. Nos últimos anos, conquistou avanços consideráveis em termos de crescimento econômico com justiça social e consolidação democrática. Emergiu como a sexta economia mundial e um dos polos de uma ordem multipolar em construção.

A emergência do Brasil trouxe, contudo, ao País o desafio de superar sua própria emergência e, assim, de construir-se como uma potência, dotada de todos os instrumentos militares, tecnológicos e industriais indispensáveis a essa condição.

Para tanto, a escolha de autonomia industrial em matéria de defesa, aeronáutica e espaço revela-se essencial. Uma indústria aeronáutica, espacial e de defesa independente, além de ser elemento motor do desenvolvimento nacional, permite autonomia de decisão e influência política no cenário internacional.

Para construir uma base industrial nesses setores, sólida e sustentável, a Estratégia Nacional de Defesa (END-2008) lançou a ideia de parcerias com países que possam contribuir para a transferência e o desenvolvimento de tecnologias de ponta de interesse nacional.

Vale a pena citar o que a END estipula a respeito:

“O Brasil não deseja ser mero comprador ou cliente de empresas estrangeiras, mas desenvolver cooperações estratégicas que alavanquem capacitações autóctones, o que requer a transferência para o território brasileiro de parte substancial dos esforços de P&D e de produção de plataformas, sistemas, equipamentos e componentes pretendidos [...]. Tais parcerias devem contemplar, em princípio, que parte substancial da pesquisa e da fabricação seja desenvolvida no Brasil, e ganharão relevo maior, quando forem expressão de associações estratégicas abrangentes.”


A importância de parcerias estratégias, tais como descritas pela END, reside no reconhecimento de que, nas condições atuais de avanço tecnológico do Brasil, a autonomia de tecnologias e a capacidade industrial não têm como ser alcançadas de modo autárquico. O objetivo é a autonomia estratégica, não a autossuficiência.

As parcerias representam, assim, a oportunidade de economizar décadas de trabalho, além de dezenas de bilhões de reais que seriam despendidos a mais, se o caminho da autarquiafosse escolhido.

Parcerias estruturantes que envolvem capacitação industrial, de alta tecnologia e de recursos humanos são, contudo, excepcionais.

Isto porque tais parcerias transcrevem ato político e diplomático fundado na mais profunda confiança recíproca e no compartilhamento de valores e de visões política e geopolítica.

Tais parcerias vinculam governos, Forças Armadas e empresas por décadas, em função do longo ciclo de produção de armamentos e de sistemas espaciais e aeronáuticos. Considerando a complexidade dos programas e a sua natureza sensível, tais parcerias exigem esforço de coordenação política permanente entre os governos.

O número de países interessados e dispostos a travar parcerias em alta tecnologia é consideravelmente restrito, uma vez que:

i)                   Pouquíssimos países detêm tecnologia avançada em todo o leque das indústrias estratégicas (aeronáutica, naval, espacial, mísseis, nuclear, eletrônica, computação de alto desempenho, sistemas avançados de transporte). De fato, só quatro potências no mundo adquiriram todo esse leque de competências: Estados Unidos, França, Rússia e, cada vez mais, China;
ii)                O acesso a tecnologias de ponta e tecnologias sensíveis altera a estratificação do poder no cenário internacional;
iii)              As tecnologias estratégicas na área de defesa são geralmente submetidas a restrições de comércio e certificações diversas;
iv)              As tecnologias encontram-se, muitas vezes, protegidas por sistemas de direitos de propriedade intelectual ou preservadas sob a forma de segredo industrial;
v)                As tecnologias de ponta e sensíveis foram, em geral, objeto de vultosos financiamentos governamentais, ao longo de décadas, que possibilitaram a consolidação de indústrias estratégicas (polos de excelência e de competitividade em seus países – o caso da França desde De Gaulle). Existe, muitas vezes, por parte da opinião pública e das empresas desses países, o temor de que, ao repassar essas tecnologias, estariam criando seus futuros competidores.

Das grandes potências dotadas autonomamente de todos os atributos tecnológicos, apenas uma identificou no Brasil o parceiro ideal para somar esforços e adquirir escala. Apenas uma ofereceu condições máximas de acesso a tecnologias avançadas. Apenas uma,ao apoiar inequivocamente a concessão ao Brasil de assento permanente no Conselho de Segurança, sinalizou considerar a ascensão brasileira à condição de grande potência como algo que atende a seus próprios interesses.

Essa potência é a França.

A França é uma potência tecnologicamente avançada, dotada de uma indústria de defesa completa. É proprietária de sua tecnologia, sendo, por isso, capaz de e independente para transferi-la,

A França está disposta a transferir tecnologia e o tem feito com o Brasil, projetando e fabricando em conjunto, o que é a melhor forma de transferência de tecnologia. Os nossos interesses e necessidades são complementares: o Brasil quer ganhar capacitação tecnológica e industrial e a França busca escala e margem para competir no cada vez mais aguerrido mercado mundial.


A cooperação Brasil-França é, de fato, um caso emblemático de parceria estratégica e, por enquanto, um caso único, em termos de real capacitação industrial e tecnológica nacional, tendo no Prosub seu principal “garoto-propaganda”.

O Prosub, em cuja negociação estive profundamente envolvido, é umprograma complexo do ponto de vista tecnológico, de longo prazo do ponto de vista de sua execução e de alta sensibilidade política, tendo em vista as tecnologias implicadas (interface nuclear, sistemas de combate etc).

O Prosub é o maior empreendimento de cooperação internacional, tanto do Brasil como da França, na área de defesa e talvez o único dessa natureza no mundo.

Sua execução está sendo um sucesso. É a prova de que, com confiança e respeito, é possível cooperar em domínios sensíveis. A transferência de tecnologia está efetivamente ocorrendo, assim como o esforço de nacionalização da produção. Mais de 210 engenheiros e técnicos da Marinha do Brasil já foram treinados na França, além de pessoal de empresas brasileiras envolvidas no projeto, em áreas sensíveis como concepção de submarinos e sistemas de combate. 

As oportunidades no campo da aeronáutica e do espaço são imensas. Nesses setores também existe o compromisso francês de transferência de tecnologia, capacitação de pessoal, adensamento da malha industrial e formação de empresas brasileiras sólidas.

Causa-me constrangimento ver que países menos desenvolvidos que o Brasil já desenvolveram foguetes lançadores e colocaram satélites em órbita.

Se o potencial salta aos olhos, é inegável, por outro lado, que a concretização da parceria ainda depende de certo grau de visão política dos dois lados.

O começo do século 21, com o fim da secular hegemonia ocidental e o delineamento de um mundo verdadeiramente multipolar, coloca, tanto para o Brasil, quanto para a França, a questão de quais parcerias deverão ser priorizadas para que cada um se mantenha competitivo em relação aos dois gigantes, Estados Unidos e China, e aos demais pólos de poder.

Por isso é que, dentre as parcerias possíveis, estou convencido de que a parceria Brasil-França é a única que se pode qualificar de verdadeiramente autêntica. Muito além da complementariedade industrial e econômica, a parceria se funda na proximidade cultural, no regime político democrático, no intercâmbio humano frequente e na semelhança de visão de mundo.


Muito obrigado pela atenção.

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